As férias do João e o dinheiro dos outros

06-10-2026

O João está de férias. Esta ausência, merecida, implicou que telefonemas, visitas a imóveis e respostas a pedidos de interessados estejam, por algumas semanas, mais centrados em mim.

A semana que acabou fiz, entre outras, duas visitas que me levaram a pensar (ocasionalmente, acontece-me isto).

O primeiro caso foi a um daqueles imóveis que me parece ser uma escolha óbvia e racional para investidores locais: uma loja, anteriormente sem apetência comercial, que foi transformada em onze escritórios individuais.

Estão todos alugados, sempre. A obra de adaptação foi cuidada e bem executada, está em muito bom estado de conservação, a rentabilidade é boa e o risco de ausência de retorno é reduzido. Se um ou dois inquilinos saírem, continuam a ficar outros nove.

Um investimento de valor semelhante ao de um apartamento usado, mas com mais do dobro da rentabilidade, menos incómodo e custos fixos baixos.

Quem se interessou? Um casal, natural de outras paragens, mas residente em Portugal há já algum tempo, que precisa de um escritório pequeno.

Opções? Arrendar uma sala num espaço já existente ou investir num negócio como este, obter um rendimento superior à remuneração oferecida pela banca e, em simultâneo, resolver a sua própria necessidade de espaço.

O segundo caso foi de um "investidor" que se interessou por uma moradia para recuperar e colocar no mercado de arrendamento, também como alternativa às baixas taxas de juro pagas pela banca, como compensação por disponibilizar os fundos que as pessoas lhe confiam.

O argumento era simples:

"Juntei alguns dinheiritos, comprei um apartamento num prédio, mas a coisa está a correr mal. Entre proprietários que têm usos 'esquisitos' para as suas casas, condomínios que não funcionam e obras que não são feitas, decidi partir para outra.

Quero uma moradia, para renovar eu mesmo. Não confio nas reabilitações que se veem anunciadas. Quero uma casita sem vizinhos e sem condomínios, para pôr a alugar."

Para alguém que, como eu, está na mediação imobiliária há década e meia, há uma ideia que reaparece sempre que as más notícias sobre a banca saltam à vista: "o tijolo é a solução segura".

Com as taxas de juro praticadas em Portugal e, talvez, alguma falta de confiança na banca, esta visão mantém-se pungente e constante.

Curiosamente, quando, em 2012, a banca fechou a torneira, o imobiliário quase parou. Quer se goste, quer não, imobiliário e banca vivem mal um sem o outro.

Ouvimos falar de investimento regularmente, mas neste caso estamos a falar de quê?

Maioritariamente de famílias que vão acumulando capital proveniente de poupanças e que, muitas vezes, colocam tudo o que conseguiram juntar em décadas num único imóvel, como segurança ou como rendimento adicional, se as pensões deixarem de chegar para viver.

Atualmente, não se pode viver sem um banco, mas isso não quer dizer que se confie nele.

Não estamos a falar de grandes investidores, negócios milionários, pura especulação, projetos megalómanos, nem de entidades organizadas que investem quantias avultadas em imobiliário.

Longe disso.

Aqui estamos a falar de famílias, cidadãos comuns, incógnitos, que procuram assegurar um futuro um pouco menos dependente ou poder ajudar alguém da família que venha a precisar.

Estas famílias, no seu conjunto, acabam por ter peso e impacto.

Quando compram, pagam impostos. Quando renovam imóveis, geram trabalho e riqueza para pequenos negócios e profissionais, que por sua vez também pagam impostos. Quando arrendam, aumentam a oferta disponível. E, ao fazê-lo, voltam a pagar impostos sobre os proveitos obtidos.

São uma massa silenciosa, quase impercetível, que vai movimentando a economia, ao seu nível, e contribuindo para minimizar uma crise da qual tanto se fala e que não vai desaparecer rapidamente.

Isoladamente, pouco impacto provocam. Sendo milhares, o impacto é relevante.

Pergunto-me se essas famílias são recompensadas e conseguem atingir o seu objetivo.

Nem sempre. Nem todas.

Entre políticas que, na vida real, lhes podem ser desfavoráveis e dissabores diversos, conheço muitos casos em que, algum tempo depois, esses imóveis voltam ao mercado para serem adquiridos por outros que, movidos pelo mesmo anseio, vão tentar também eles encontrar aquele extra que lhes pode proporcionar uma vida mais confortável.

Acumulação indiscriminada de riqueza? Avareza?

Não. Muitas vezes, é simplesmente uma tentativa de garantir alguma segurança.

Uma semana depois de PSD e Chega terem assinado um acordo para introduzir alterações, na especialidade, à proposta do Governo de revisão do Novo Regime do Arrendamento Urbano (NRAU), talvez fosse útil recordar que o país não é só Lisboa e Porto.

E que nem todos os investidores, nem todos os proprietários, nem todos os projetos imobiliários têm o mesmo peso e a mesma medida.


Escrito por Pedro Gabriel e publicado originalmente no LinkedIn.

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