As confissões do Coiote


Sosseguem os que nunca viram Looney Tunes, hoje não venho falar dessas personagens.
Para alguém com a minha idade é fácil recordar as façanhas do Bip-Bip, aquele pássaro rápido que escapa sempre, e o Coiote, que inventa estratagemas que acabam sempre por se voltar contra ele.
No entanto, se fizer um paralelo entre a dificuldade do cidadão comum em acompanhar a evolução da tecnologia, quase que podemos dizer que a tecnologia é hoje o Bip-Bip e todos nós o desgraçado do Coiote.
Vejamos o caso concreto do setor imobiliário. Há quinze anos atrás, mas também à 10 e talvez até à cinco, para fazer uma reportagem fotográfica tínhamos uma máquina digital ou, os mais evoluídos, contratavam um fotógrafo, que também tinha uma máquina digital, só que de melhor qualidade. Hoje, um telemóvel, uma ligação wireless e a reportagem instantânea está feita. Embora, sem umas imagens feitas com drone, nada aconteça. Ou, sem um reel nas redes sociais — de preferência provocador —, é como se a casa nem existisse.
Quando o imóvel tem aquela falta de appeal que cativa, as imagens IA estão sempre lá para corrigir. E os textos, que no final de contas a maioria concorda que muitos poucos leem, mas que o Google fareja continuamente? Não há problema, a IA está lá para dar aquele toque profissional que todos hoje podem evidenciar.
Documentos em papel? Coisas de velhos! Hoje é tudo digitalizado, enviado por e-mail e guardado em data centers. Segurança? Conformidade? Falsificação? Não é esse o assunto de hoje. Legislação e obrigatoriedade legal? Claro, é essencial, mas e o medo que muitos ganham pela sucessiva massificação dos avisos sobre a possibilidade de ser hackeado? O quase terror que muitos sentem quando lhes pedem uma informação ou um documento, face a um risco imenso, que na realidade não conseguem perceber? Falamos disso noutra oportunidade.
No momento atual, a evolução da tecnologia não se mede em anos, mede-se em horas. Não vejo muita preocupação em adaptar a tecnologia às pessoas, sinto exatamente o contrário, as pessoas são forçadas a adaptar-se e a compreender a tecnologia, como se disso dependesse a sua existência.
E tal como o Coiote, por mais estratagemas que as pessoas inventem, são sempre inexoravelmente batidas pelo rapidíssimo Bip-Bip que é hoje a tecnologia.
A minha carreira profissional começou, embora no início de modo informal, em 1976, talvez 1977, há quase 50 anos. Sempre lidei com pessoas, nuns momentos clientes finais, mas, na sua maioria, clientes B2B. Todo este tempo, coloca-me na posição de poder ter a veleidade de perceber um pouco daquilo que a maioria hoje sente.
Não é só a evolução que condiciona a perceção das realidades, é o progressivo desligamento que muitos sentem à medida que deixam de compreender o mundo que os rodeia. E, quanto mais se desligam, menos compreendem o mundo em que vivem.
Do outro lado da equação, aqueles que estão a acompanhar, em passo acelerado, todos estes desenvolvimentos, mas que, em última instância acabam por não ter tempo para perceber que há realidades diferentes, pessoas diferentes e até momentos diferentes na vida das pessoas. Estará a tecnologia a tornar essas pessoas distantes da realidade e insensíveis ao mundo que as rodeia? Como, aquelas situações que hoje começam a ser comuns, em caso de acidente, primeiro o vídeo, depois o socorro às vítimas.
Vender casas é um trabalho exigente. As pessoas acabam por esperar muito de nós e, por vezes, sem disso se aperceberem, acabam também por dar alguma coisa delas mesmas. Por vezes há ligações que se mantêm muito para além do fim dos contratos.
Quando o nosso foco deixa de ser somente prosseguir a glória da concretização — a idade acabou por me dar isso mesmo — passamos a ter a oportunidade de olhar para as pessoas e ter a desfaçatez de perceber as dificuldades que sentem, uns por darem a perceção de perceberem bem de mais a tecnologia e outros por não perceber, de todo, essa mesma tecnologia.
E não se enganem: isto não é uma questão de idade. Conheço vinte e poucos anos completamente perdidos, e sessentões que dançam com a tecnologia como se tivessem nascido dentro dela.
Neste ponto, arrisco, que quem lê pode perguntar: E agora? Paramos a evolução da tecnologia? Segregamos as pessoas? A resposta simples e cómoda seria: não! De forma nenhuma! Mas a solução não pode ser nenhuma destas, algures o bom senso terá de prevalecer.
Recuso-me a aceitar que o mundo em que vivemos siga neste caminho. Mas após esta mera convicção só me ficam as dúvidas e a incerteza.
Como vamos ajustar a tecnologia à dimensão humana? Legislar mais e mais depressa, terá sido essa alguma vez a solução real? Há, porém, algo mais imprevisível do que a legislação. E se, inopinadamente, o mundo como o conhecemos hoje mudar, como vimos recentemente acontecer a tanta gente? Será admissível pensar que a tecnologia, por força de ações incontroláveis, possa deixar de ser o motor que hoje acelera as nossas vidas?
Tal como as crianças, parece que regressei à fase dos porquês, em que procuro as razões para compreender o funcionamento das coisas. As minhas limitações não me permitem ir muito mais além. Aliás, acho que a presunção de compreender algo tão complexo, como as pessoas, já é um passo maior do que a perna.
Caramba! Há momentos em que sinto saudades dos dias em que me levantava muito cedo somente com o objetivo de vender alguma coisa a alguém e regressava a casa muito tarde, mas cansado e às vezes satisfeito. Quando acabava de preencher notas de encomenda em papel e as colocava num envelope, para seguirem por correio no dia seguinte ou, quando fazer uma escritura, justificava jantar fora com a família e publicar um post "Mais um Vendido!"
Os bons velhos tempos? Isso não existe, os bons tempos são aqueles em que estamos vivos. Hoje, só tenho como ambição manter a presença de espírito para continuar, com as naturais limitações que são intrínsecas à maioria dos seres humanos, a compreender um pouco do mundo onde vivo e a desejar ser capaz de nele me conseguir continuar a enquadrar.
Bip-Bip! Bip-Bip!
