Esta manhã...

12-08-2026

Esta manhã acordei particularmente retemperado e, porque não dizê-lo, feliz, depois de uma noite com boas horas de sono tranquilo. Muito provavelmente pelas notícias divulgadas na véspera, que prometiam mudar a face de Portugal ao longo do próximo quarto de século.

Confesso que fui apanhado de surpresa pela profundidade, pelo detalhe e pela convergência política e social das medidas anunciadas, apesar dos sinais que se vinham acumulando nas últimas semanas. A analogia da pequena bola de neve que começa a descer uma encosta e, pouco a pouco, se transforma numa avalanche capaz de alterar um país inteiro pareceu-me perfeita.

Terminei o primeiro café da manhã e, antes de sair, olhei pela janela. A rua era a mesma de sempre. As pessoas seguiam as suas rotinas, indiferentes ao alcance daquelas notícias. Sorri. Talvez ainda ninguém tivesse percebido que, se tudo aquilo viesse realmente a acontecer, Portugal começaria finalmente a pensar em si próprio como um projeto de longo prazo.

Saí de casa em direção ao escritório. O percurso é curto, mas, naquela manhã, pareceu-me suficiente para imaginar um país diferente.

Ao caminhar, detive-me por instantes no edifício que já foi um externato, depois um polo universitário e que hoje funciona como centro de saúde de recurso. Passei pelo hospital e desci até à praça onde, há décadas, se vendem diariamente fruta e legumes da região. Pensei nas marcas que o tempo vai deixando na forma como gerimos o território.

O reconhecimento de que a gestão do território constitui uma das grandes escolhas estratégicas de uma nação era, para mim, a verdadeira charneira da mudança. Durante grande parte do século XX assistimos, quase sem questionar, ao lento movimento que foi concentrando população, empresas e serviços no litoral, enquanto o interior perdia habitantes, dinamismo e oportunidades. Pela primeira vez, parecia existir a vontade de inverter esse caminho.

Recordei então o terramoto de Lisboa, em novembro de 1755, e, já no nosso tempo, o tsunami do Oceano Índico, em dezembro de 2004. Não por pessimismo, mas porque um país excessivamente concentrado torna-se inevitavelmente mais vulnerável. Distribuir melhor pessoas, atividade económica e serviços deixava de ser apenas uma questão de coesão territorial para passar a representar uma decisão estratégica sobre a forma como queremos viver e preparar o futuro.

Continuei a caminhar por uma das ruas de maior movimento da cidade e parei por instantes. Do lado esquerdo, a conservatória do registo predial, entretanto transferida para outro local. Do lado direito, o antigo arquivo do tribunal, hoje praticamente devoluto, consequência da digitalização documental. Não consegui evitar pensar no impacto que a centralização dos serviços tem na vida das pessoas, sem deixar de me interrogar se a melhoria será sempre evidente para quem dela depende.

Pareceu-me então natural que essa visão começasse pelos pilares fundamentais da sociedade. Saúde, educação, justiça, segurança e cultura deixariam de estar excessivamente concentradas nas grandes áreas urbanas, reforçando o papel de muitas cidades do interior. Ao mesmo tempo, a simplificação administrativa, a desburocratização e a digitalização do Estado, finalmente consolidadas, aproximariam os serviços dos cidadãos e dariam consistência a essa transformação.

Ao passar junto ao terminal rodoviário, cheio de vida naquela hora da manhã, e ao aproximar-me da estação ferroviária, praticamente deserta e sem uma oferta regular e consolidada, pensei na mobilidade.

Uma rede nacional de transporte ferroviário, complementada por soluções de proximidade, aproximaria regiões, reduziria tempos de deslocação e diminuiria o impacto ambiental. Mais do que uma revolução nos transportes, seria uma revolução na qualidade de vida, devolvendo às pessoas um recurso que tantas vezes lhes falta: tempo.

Ao sair do parque, pelo lado dos campos de ténis, não consegui evitar olhar para um edifício devoluto que ali permanece há décadas à espera de um futuro. Eu próprio o promovi para venda durante algum tempo, até alguém decidir que o caminho seria outro. Recordei o peso que a indústria teve no desenvolvimento da cidade e da região e o impacto que o seu lento desaparecimento provocou. Ocorreu-me então que nenhum destes pilares se sustentaria sem uma economia capaz de os acompanhar. O incentivo à instalação de empresas no interior e a descentralização das maiores organizações portuguesas permitiriam criar riqueza, emprego qualificado e novas oportunidades para milhares de famílias.

Já quase a chegar ao escritório, ao percorrer a rua paralela à linha do comboio, fui observando pequenas habitações abandonadas, antigas casas de família com um ou dois pisos, escolas e edifícios mais recentes, ainda assim com pelo menos cinquenta anos, desproporcionais para a visão atual da cidade e com reconhecidos problemas de manutenção. A habitação e a reabilitação voltaram espontaneamente ao centro dos meus pensamentos.

Naturalmente, também a habitação encontrava o seu lugar nesta visão. Não como um problema isolado que exigisse respostas avulsas, mas como parte integrante de uma estratégia nacional. A reabilitação do parque habitacional, o incentivo à construção onde ela fosse realmente necessária e o fortalecimento das empresas locais deixavam de ser objetivos independentes para passarem a servir um propósito comum: construir um país mais equilibrado. Afinal, a construção sempre teve um papel dinamizador da economia portuguesa.

Liguei o computador e procurei novamente as notícias da véspera para as reler com mais atenção.

Não estavam.

Encontrei apenas a mesma sucessão de ideias desajustadas, desligadas entre si e desprovidas de uma visão global e de longo prazo.

Ficou-me a efémera satisfação, não mais de três quartos de hora, de ter acreditado que Portugal podia ser um país verdadeiramente diferente.


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