Quase 40 anos depois, o problema mantém-se
Em 1987, para conseguir ter uma vida independente, tive de sair de Lisboa.
Na altura, ambos trabalhávamos na cidade. Como não encontrávamos habitação acessível, mudámo-nos para uma freguesia na margem Sul, no concelho do Seixal.
A casa? Uma moradia sem aprovação camarária, sem água canalizada e com um acesso que, quando chovia, se tornava praticamente intransitável.
A água vinha de um poço.
Num dos anos de menor pluviosidade, tivemos mesmo de investir num furo.
Hoje, quando olho para trás, há um detalhe que me continua a impressionar:
Pagávamos uma renda que, atualizada à inflação, seria próxima dos 1.000 euros mensais.
E, para cumprir as nossas obrigações profissionais em Lisboa, saíamos de casa às 5:45 da manhã.
Entre ida e volta, passávamos pelo menos 3 horas por dia em deslocações.
Mantivemos esse ritmo durante quase 14 anos.
O motivo era simples:
Não havia habitação para arrendar — independentemente do valor da renda.
Quase 40 anos depois, o discurso mudou.
Mas o problema, em muitos aspetos, continua estranhamente familiar.
A escassez de oferta, a pressão sobre os preços e a dificuldade de acesso à habitação continuam a marcar a realidade de muitas famílias.
E talvez isso nos obrigue a uma pergunta desconfortável:
Porque é que, ao fim de várias décadas, continuamos a discutir essencialmente o mesmo problema?
👉 Para quem acompanha o mercado de perto — ou viveu realidades semelhantes — reconhece este padrão?
Escrito por Pedro Gabriel e publicado originalmente no LinkedIn
