O post que não queria mesmo ter de escrever

22-09-2026

Ao longo da nossa vida, desempenhamos diferentes papéis, consoante a situação e o momento. Vou focar-me apenas em dois: o de comprador e o de vendedor.

A Casa Gold é a marca comercial de uma empresa de mediação imobiliária. No exercício da nossa atividade, podemos estar do lado de quem vende ou de quem compra, sempre em representação de terceiros.

Para além da atividade de mediação, a sociedade é também coproprietária de outra sociedade, destinada à compra e venda de ativos imobiliários. Neste momento, nessa sociedade, estamos predominantemente do lado de quem vende.

É sobre esse papel que hoje vou escrever.

Em 2022, foram adquiridos por essa sociedade alguns ativos para revenda e entregues a duas empresas de mediação imobiliária para serem comercializados.

A pandemia de COVID-19 estava a ficar mais controlada e o foco passou a ser recuperar a atividade comercial, seriamente afetada desde março de 2020. A atenção esteve muito tempo noutro lugar.

Chegou 2026 e os proprietários pararam para pensar e perceberam que o tempo tinha passado.

Antes, tinham havido propostas, visitas, avaliações bancárias, acordos e desacordos, mas nada de relevante tinha acontecido. Foi então tomada a decisão de rever a estratégia de comercialização.

Das duas empresas contratadas, uma tinha mantido algum tipo de proximidade, embora nada que impressionasse. Sabíamos que estava presente.

Da outra, não tínhamos qualquer evidência de contacto ou acompanhamento ao longo de quatro anos.

Foi tomada a decisão de denunciar o contrato com essa empresa.

Surpresa.

A marca comercial mantinha-se, mas a sociedade tinha entretanto passado de sociedade por quotas para sociedade unipessoal, a sede era agora noutra morada e o diretor coordenador que tinha tratado da contratação já não estava na empresa.

O problema não era nenhuma destas alterações.

O problema era não termos sido informados de nenhuma delas.

Depois de nos terem sido enviados os contratos de mediação assinados, não recebemos qualquer comunicação: nem um contacto, nem um telefonema, nem uma ligação para um anúncio, nem uma atualização, nada que nos permitisse perceber o que estava a ser feito.

Não sabemos se a venda foi trabalhada.

Sabemos que, enquanto clientes, nunca tivemos essa perceção.

Foi enviada uma carta de denúncia para a morada atual da empresa que, como de algum modo era esperado, não obteve qualquer resposta.

Passo seguinte: decidimos convidar seis empresas idóneas e de reconhecida notoriedade para conhecerem os ativos e, havendo acordo, os comercializarem em regime de exclusividade.

O resultado foi, no mínimo, curioso.

  1. A primeira entidade contactada recebeu o pedido através do website, respondeu automaticamente a confirmar a receção e a informar que iria contactar em breve. Nunca contactou.
  2. Para a segunda entidade foram enviados seis pedidos de contacto através do website. Nenhum parece ter sido entregue e nenhum contacto foi recebido.
  3. A terceira entidade, simpatiquíssima, manifestou interesse, disponibilizou-se para reunir e, de facto, deslocou-se para o fazer. Pediu para visitar os ativos e apresentar uma sugestão de preço, o que foi aceite de imediato. A partir daí, desapareceu, sem qualquer explicação.
  4. A quarta entidade manifestou interesse em reunir e, posteriormente, informou que o faria na companhia da diretora comercial, tal era o interesse demonstrado. Foi atempadamente informada da data para reunir. Na véspera, informou que tinha outro compromisso e pediu para fazer a reunião por videochamada. O convite nunca chegou, o contacto perdeu-se e não houve qualquer explicação.
  5. Houve ainda uma outra entidade que simplesmente não respondeu aos contactos. Nem atendeu o telefone, nem devolveu a chamada. E ficou por aí.
  6. Há, felizmente, uma entidade que compareceu. No mesmo dia, pediu documentação, visitou os locais sem acompanhamento, porque conhecia a região, foi proativa e eficiente, manifestou interesse e, obviamente, já contratou.

A todas as entidades foi transmitido um ponto: apesar de os proprietários terem experiência relevante em mediação imobiliária, nesta situação iriam atuar exclusivamente no seu papel de vendedores, sem interferência de qualquer ordem.

Queríamos vender.

Nada mais.

No Manual de Boas Práticas da Casa Gold definimos que um cliente que nos contacta deve receber resposta entre 12 e 24 horas quando o contacto é recebido em dia útil e, para contactos recebidos fora do horário laboral, em feriados ou fins de semana, de imediato no primeiro dia útil seguinte.

Esta política tem levado, ao longo dos anos, a reações de surpresa e satisfação por parte de quem nos contacta.

"Enviei o pedido há pouco."

"Não estava à espera que me respondessem tão depressa."

"Já me estão a ligar?"

Sempre nos pareceu o mínimo.

Também temos recebido comentários que sugerem que, com outras entidades, nem sempre é assim.

Com franqueza, sempre considerei que havia alguma injustiça nesses comentários, por vezes pouco abonatórios, sobre o nível de serviço de algumas empresas de mediação imobiliária.

Afinal, talvez não.

O provérbio diz que "nas costas dos outros vemos as nossas".

Desta vez, tivemos a oportunidade de estar do outro lado.

E percebemos que aquilo que, enquanto profissionais, consideramos básico pode não ser assim tão básico no mercado.

A nossa primeira falha, enquanto proprietários, foi termos deixado passar demasiado tempo sem parar para avaliar o que estava a acontecer.

Mas, a partir do momento em que contratamos alguém para nos ajudar a vender, esperamos pelo menos saber que estamos a ser acompanhados.

Não esperamos necessariamente uma venda.

Esperamos trabalho, acompanhamento e comunicação.

E, sobretudo, esperamos que alguém nos dê atenção.

No título, ponderei usar a palavra "preferia" em vez de "queria".

Mas, na realidade, o que eu queria mesmo era não ter tido tema para escrever.


Escrito por Pedro Gabriel e publicado originalmente no LinkedIn.

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