Perdi duas angariações. E não foi pelo preço.
Nas últimas semanas perdi duas angariações.
Não foi pelo preço.
Não foi pela comissão.
Não foi pelo contrato de mediação.
Foi porque pedi documentação.
Confesso que, evitando o vernáculo popular, fiquei bastante chateado.
Dois potenciais clientes, um para arrendar e outro para vender, contactaram-me sem que nos conhecêssemos anteriormente. Ambos manifestaram intenção de contratar os nossos serviços.
Num dos casos, preparámos um relatório específico para aquele imóvel. Como fazemos habitualmente, isso implicou investigação documental e uma visita presencial. No outro, o trabalho foi mais simples, porque o imóvel já nos era conhecido.
No momento da contratação, ambos desistiram.
Não por discordarem do preço sugerido.
Não por causa do serviço prestado.
Nem pelos termos do contrato.
O motivo foi o pedido de documentação.
Uma das respostas recebidas dizia, literalmente:
"Agradeço a resposta mas não irei ter o trabalho de reunir uma série de documentos que são irrelevantes para o processo de aluguer de um apartamento que já provei ser meu, documentos esses não exigidos por outras empresas do ramo..."
Importa esclarecer que os documentos já enviados eram uma caderneta predial, uma certidão da conservatória do prédio, ambas emitidas há mais de três anos, um certificado energético e uma cópia do documento de identificação.
Os documentos em falta eram a licença de utilização, uma certidão predial atualizada do imóvel e os restantes elementos de identificação e diligência que uma empresa licenciada está obrigada a recolher.
Expliquei que a segurança de um negócio imobiliário não assenta apenas na boa-fé das partes. Assenta também na documentação, na sua existência, validade e conformidade. Mesmo assim, nem sempre é possível evitar problemas. Ignorar esses procedimentos, além de ilegal, aumenta desnecessariamente o risco.
Se cumprir aquilo que considero ser o meu dever profissional me fizer perder contratos, aceito esse preço.
Mas, passado o episódio, fiquei a pensar noutra questão.
Vivemos numa sociedade onde todos os dias ouvimos falar de novas fraudes e de novas formas de proteção. Ao mesmo tempo, aumentaram significativamente as obrigações legais de quem compra, de quem vende e de quem exerce a mediação imobiliária.
Vivemos uma época em que as mudanças legais e tecnológicas acontecem a um ritmo difícil de acompanhar. Para quem trabalha diariamente com elas, tornam-se rotina. Para quem compra, vende ou arrenda uma casa uma ou duas vezes na vida, podem ser vistas como exigências desnecessárias.
Talvez o verdadeiro desafio não seja implementar novas regras, mas ajudar as pessoas a compreender porque é que elas existem. Só assim conseguiremos distinguir um formalismo aparentemente inútil de um procedimento que existe para proteger todas as partes.
Escrito por Pedro Gabriel e publicado originalmente no LinkedIn
